Uma das doutrinas mais preciosas da fé reformada é a perseverança dos santos. Cremos que aqueles que foram verdadeiramente regenerados, justificados e unidos a Cristo serão preservados por Deus e perseveraram na fé até o fim.
Pedro afirma que os crentes são “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação” (1Pe 1:5). Paulo demonstra a mesma confiança ao declarar: “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1:6).
Entretanto, existe uma pergunta particularmente difícil quando pensamos nessa doutrina: um verdadeiro cristão pode chegar ao ponto de tirar a própria vida?
Essa não é apenas uma questão teológica. É uma questão profundamente pastoral. Há famílias que carregam essa dor. Há cristãos que já enfrentaram pensamentos de morte. E há pastores que precisam ministrar a verdade bíblica sem diminuir nem a gravidade do suicídio nem a profundidade do sofrimento humano.
Por isso, precisamos abordar o assunto através das Escrituras, com sobriedade e misericórdia.
Nossa reflexão precisa começar com o valor da vida humana.
O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26-27). Nossa vida, portanto, não é simplesmente propriedade nossa. Somos criaturas; Deus é o Criador. Foi ele quem nos deu a vida, e é ele quem possui autoridade sobre ela.
Por isso, o mandamento “Não matarás” (Êx 20:13) também estabelece um princípio de preservação da vida humana.
O suicídio, portanto, não pode ser considerado moralmente neutro, uma solução legítima para o sofrimento ou simplesmente uma escolha pessoal. Tirar deliberadamente a própria vida é contrário à vontade revelada de Deus.
Entretanto, reconhecer que o suicídio é pecado não resolve toda a questão. Precisamos perguntar algo ainda mais difícil: esse pecado necessariamente demonstra que a pessoa nunca foi salva?
As Escrituras não romantizam o sofrimento dos servos de Deus. Pelo contrário, apresentam homens piedosos chegando a profundidades emocionais impressionantes.
Jó amaldiçoou o dia do próprio nascimento e perguntou:
“Por que não morri eu na madre?” (Jó 3:11).
Elias, depois da extraordinária vitória no Carmelo, sentou-se debaixo de um zimbro e disse:
“Basta; toma agora, ó Senhor, a minha vida” (1Rs 19:4).
Jonas também desejou morrer (Jn 4:3,8). E vários salmos revelam a alma dos filhos de Deus esmagada pelo sofrimento.
Isso nos ensina algo importante: um verdadeiro crente pode desejar a morte sem ter deixado de ser verdadeiro crente.
Elias chegou ao ponto de pedir que Deus lhe tirasse a vida. Mas observe algo igualmente importante: Elias pediu que Deus a tirasse; ele não a tomou pelas próprias mãos.
Há uma diferença importante entre desejar morrer em meio ao sofrimento e deliberadamente provocar a própria morte.
E aqui surge a dificuldade da perseverança dos santos.
Deus preserva os seus, e exatamente por serem preservados por Deus, eles perseveram.
Jesus disse:
“Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24:13).
Paulo fala da necessidade de permanecer “fundados e firmes na fé” (Cl 1:23). E Hebreus insiste repetidamente na necessidade de conservar a confiança até o fim.
É exatamente aqui que a questão do suicídio se torna tão difícil para quem leva essa doutrina a sério.
O suicídio seria o abandono final da esperança?
Esse é provavelmente o argumento mais forte daqueles que entendem que um verdadeiro crente não chegará ao suicídio.
Ele pode ser terrivelmente abalado. Pode gemer. Pode chorar. Pode perguntar: “Até quando, Senhor?”. Pode chegar ao ponto de dizer: “Eu gostaria de morrer”.
Mas continuará, de alguma maneira, agarrada a Deus.
O salmista pergunta:
“Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?”
Mas imediatamente responde:
“Espera em Deus” (Sl 42:5).
Essa é uma característica impressionante da fé bíblica: ela pode falar a partir do fundo do poço, mas continua falando com Deus.
Por isso, podemos formular uma pergunta legítima: Se Deus promete preservar a fé de seus filhos até o fim, não deveríamos esperar que essa preservação também os impedisse de chegar ao ato definitivo de destruir a própria vida?
Precisamos ter cuidado para não dizer que a Bíblia afirma claramente aquilo que apenas concluímos a partir dela.
Não existe na Bíblia um texto dizendo: “Todo aquele que cometer suicídio demonstra que nunca foi regenerado”.
Também não encontramos o suicídio listado como pecado imperdoável.
O pecado imperdoável não é “morrer sem conseguir confessar o último pecado cometido”. Se fosse assim, nossa segurança dependeria de conseguirmos confessar individualmente cada pecado antes da morte.
Os antigos pastores reformados e puritanos frequentemente falavam de “melancolia” para descrever estados de profunda perturbação da mente. Eles reconheciam que pessoas piedosas poderiam experimentar pensamentos terríveis, desespero e distorções profundas da percepção.
Isso não transforma o suicídio em algo correto. Explicar um pecado não é justificá-lo.
Mas nos impede de presumir que conhecemos perfeitamente o grau de consciência, intenção e responsabilidade existente nos últimos momentos de outra pessoa.
Há uma enorme diferença entre alguém que, em plena lucidez, rejeita deliberadamente Deus e alguém cuja mente se encontra profundamente perturbada.
Deus conhece perfeitamente essa diferença. Nós, muitas vezes, não.
Então, precisamos resistir a dois extremos.
De um lado, não devemos dizer levianamente:
“Ele era salvo, então o suicídio não importa.”
Importa, sim. É uma terrível violação do propósito de Deus para a vida e jamais deve ser apresentada como uma saída aceitável para o sofrimento.
Por outro lado, também devemos evitar dizer:
“Se cometeu suicídio, sabemos com certeza que está condenado.”
As Escrituras não nos concedem autoridade para fazer essa afirmação.
Talvez uma formulação mais responsável seja esta:
O suicídio é profundamente incompatível com a esperança cristã e pode levantar sérias questões sobre a condição espiritual de uma pessoa, mas não nos dá autoridade para pronunciar infalivelmente seu destino eterno.
A palavra final pertence a Deus.
Perseverança não significa ausência de sofrimentos. Talvez aqui esteja um dos pontos mais importantes.
A perseverança dos santos não significa que os santos nunca chegarão perto do abismo.
Elias chegou perto.
Jó chegou perto.
Mas existe algo belíssimo nesses relatos: Deus encontrou seus servos no vale.
Quando Elias pediu para morrer, Deus não lhe entregou uma aula de teologia. Deu-lhe alimento, descanso, sua presença e uma nova missão.
O profeta estava desistindo de si mesmo.
Deus, porém, não havia desistido do profeta.
Isso talvez nos ajude a compreender melhor a perseverança dos santos.
No fundo, nossa perseverança depende da preservação de Deus.
Não chegaremos à glória porque nossa mão segurou Cristo com força suficiente, mas porque a mão de Cristo nunca nos soltou.
Jesus disse:
“Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10:28).
Por isso, a doutrina da perseverança nunca deveria nos tornar frios diante de alguém que está em desespero.
Deveria produzir exatamente o contrário.
Quando um irmão começa a perder a esperança, a igreja deve cercá-lo.
Quando ele não consegue enxergar a bondade de Deus, precisamos lembrá-lo dela.
Quando não consegue carregar seu fardo sozinho, precisamos carregá-lo com ele.
Quando sua mente lhe diz que não existe saída, precisamos ajudá-lo a ouvir novamente a voz do Evangelho.
E, diante de sinais concretos de risco de suicídio, o cuidado pastoral não deve substituir ajuda médica e psicológica urgente; ambos podem caminhar juntos na preservação da vida.
A resposta cristã ao desespero não é minimizar a dor. É apontar para Cristo no meio dela.
Conclusão
Continuo considerando legítima a dificuldade teológica que existe entre suicídio e perseverança dos santos. Não precisamos resolvê-la dizendo mais do que a Bíblia diz.
Podemos afirmar claramente que o suicídio é pecado, que não representa a esperança cristã e que Deus chama seus filhos a perseverarem até o fim.
Também podemos afirmar que crentes verdadeiros podem atravessar períodos assustadores de abatimento e até desejar a morte.
O que não podemos fazer é transformar o suicídio em pecado imperdoável nem assumir para nós o lugar daquele que conhece perfeitamente o coração humano.
Por isso, talvez a melhor conclusão não seja simplesmente: “um salvo pode se suicidar” ou “um salvo jamais pode se suicidar”.
Prefiro dizer:
Creio que Deus preserva os seus e os faz perseverar até o fim. Por isso, o suicídio deve ser considerado profundamente incompatível com a perseverança cristã. Contudo, onde as Escrituras não nos permitem conhecer infalivelmente o estado final de uma alma, devemos deixar o julgamento nas mãos de Deus.
E enquanto a pessoa ainda está entre nós, nossa preocupação principal não deveria ser discutir se ela continuará salva caso tire a própria vida, mas fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que ela permaneça viva, seja cuidada e volte a enxergar esperança em Cristo.
A perseverança dos santos não significa que os filhos de Deus nunca caminharão pelo vale da sombra da morte. Significa que o Bom Pastor continuará com eles no vale e os conduzirá até a casa do Pai.
Elias Marcelino
Bibliografia para aprofundamento
CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. Capítulo XVII — Da Perseverança dos Santos; e Capítulo XVIII — Da Certeza da Graça e da Salvação.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Especialmente Livro III, nos capítulos referentes à perseverança, segurança da salvação e preservação dos eleitos.
MURRAY, John. Redenção Consumada e Aplicada. Especialmente a exposição sobre perseverança dos santos, preservação divina e glorificação.
OWEN, John. A Mortificação do Pecado. Obra importante para compreender a luta contínua do crente contra o pecado e a atuação da graça na santificação.
BUNYAN, John. Graça Abundante ao Principal dos Pecadores. Especialmente útil como testemunho histórico das profundas lutas interiores que podem acompanhar a vida cristã.
Agostinho, A Cidade de Deus, Livro I, ele trata diretamente do suicídio a partir do mandamento “Não matarás”