“No dia seguinte, partimos e fomos para Cesareia. E, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele. Ele tinha quatro filhas virgens, que profetizavam.” Atos 21:8,9
A discussão sobre o papel das mulheres na igreja frequentemente começa pelas proibições: O que uma mulher pode ou não pode fazer? Ela pode ensinar? Pode falar durante o culto? Pode pregar?
São perguntas legítimas. Entretanto, talvez devêssemos começar também por outra pergunta:
O que as mulheres efetivamente faziam na igreja do Novo Testamento?
Atos 21 nos apresenta um episódio breve, mas extremamente significativo.
Paulo está a caminho de Jerusalém e chega a Cesareia. Ali, hospeda-se na casa de Filipe, chamado por Lucas de “o evangelista”, um dos sete escolhidos anteriormente para servir à igreja (At 6:1–6).
Então Lucas acrescenta uma informação:
“Ele tinha quatro filhas virgens, que profetizavam.”
Atos 21:9
Não conhecemos seus nomes. Lucas não registra nenhuma de suas profecias. Mesmo assim, considerou importante dizer que aquelas quatro mulheres profetizavam.
Essa pequena informação precisa fazer parte de qualquer teologia bíblica séria sobre o ministério das mulheres.
Mulheres que profetizavam
A palavra utilizada em Atos 21:9 vem do verbo grego prophēteuō, que significa profetizar.
Lucas não emprega uma palavra diferente para descrever a atividade profética dessas mulheres. Elas exerciam um dom reconhecido entre os cristãos do primeiro século.
E isso não surge inesperadamente em Atos 21.
No Pentecostes, quando o Espírito Santo foi derramado sobre a igreja, Pedro explicou aquele acontecimento recorrendo à profecia de Joel:
“Vossos filhos e vossas filhas profetizarão […] até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.” Atos 2:17–18
Observe a linguagem:
filhos e filhas; servos e servas.
A chegada da nova aliança não apagou as diferenças entre homens e mulheres, mas tornou evidente que ambos participariam ativamente da vida e da missão do povo de Deus.
Nesse sentido, as filhas de Filipe são uma demonstração concreta daquilo que havia sido anunciado no Pentecostes.
Paulo também reconhecia mulheres profetizando
Essa realidade não aparece somente em Atos.
Escrevendo aos coríntios, Paulo afirma:
“Toda mulher, porém, que ora ou profetiza…”
1 Coríntios 11:5
Independentemente das diferentes interpretações acerca da cobertura da cabeça nessa passagem, existe um fato que não pode ser ignorado:
Paulo pressupõe que mulheres estavam orando e profetizando.
Ele não está discutindo naquele momento se elas poderiam fazê-lo. Sua preocupação é regulamentar como isso deveria acontecer.
Isso é importante porque algumas vezes construímos nossa compreensão do ministério feminino quase exclusivamente a partir de textos restritivos, sem colocá-los em diálogo com outras passagens igualmente inspiradas.
Uma interpretação bíblica saudável precisa permitir que toda a Escritura fale.
Se Paulo reconhece mulheres orando e profetizando em 1 Coríntios 11, não podemos interpretar posteriormente seu mandamento para que as mulheres se calem, em 1 Coríntios 14, como uma exigência de silêncio absoluto em todas as circunstâncias da reunião da igreja.
Caso contrário, colocaríamos Paulo contra o próprio Paulo.
Mas o que significava profetizar?
Essa pergunta é fundamental.
O próprio Paulo explica a finalidade da profecia na igreja:
“Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.” 1 Coríntios 14:3
E acrescenta:
“O que profetiza edifica a igreja.”
1 Coríntios 14:4
Portanto, não devemos minimizar o que aquelas mulheres faziam.
A profecia era uma atividade verbal destinada à edificação, exortação e consolação do povo de Deus.
Isso significa que, quando Atos nos informa que as quatro filhas de Filipe profetizavam, estamos diante de mulheres exercendo um ministério espiritual relevante.
Isso não significa que fossem pastoras ou presbíteras. O Novo Testamento não as identifica dessa maneira.
Mas significa igualmente que não podemos reduzi-las a participantes silenciosas da comunidade cristã.
Elas tinham dons e os exerciam.
Profetizar não é o mesmo que exercer o presbiterato
Aqui precisamos estabelecer uma distinção fundamental.
Reconhecer que mulheres exerciam dons verbais na igreja apostólica não significa concluir automaticamente que todas as funções e todos os ofícios da igreja eram indistintamente exercidos por homens e mulheres.
O Novo Testamento apresenta o presbiterato com características próprias e associa a ele responsabilidades específicas de ensino, cuidado e governo da igreja (1Tm 3:1–7; 5:17; Tt 1:5–9).
Por outro lado, também seria equivocado raciocinar na direção contrária:
“Se o presbiterato é masculino, então toda manifestação pública da Palavra deve ser exclusivamente masculina.”
Essa conclusão também precisa ser demonstrada pelas Escrituras; não pode simplesmente ser pressuposta.
Mulheres profetizavam.
Mulheres oravam.
Mulheres discipulavam outras mulheres.
Priscila, juntamente com Áquila, participou da instrução de Apolo, explicando-lhe “com mais exatidão o caminho de Deus” (At 18:26).
Paulo recomenda Febe à igreja de Roma e menciona várias mulheres entre aqueles que trabalharam pelo Evangelho (Romanos 16).
Portanto, precisamos distinguir entre o ofício de liderança e governo da igreja e as diversas maneiras pelas quais os dons concedidos pelo Espírito são exercidos para edificação do corpo de Cristo.
Essa distinção nos ajuda a compreender outro texto fundamental.
E 1 Timóteo 2:11–15?
Qualquer discussão séria sobre o ministério das mulheres precisa enfrentar estas palavras de Paulo:
“A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva.” 1 Timóteo 2:11–13
Não deveríamos enfraquecer esse texto para acomodá-lo às sensibilidades de nossa época.
Mas também não deveríamos fazê-lo dizer mais do que Paulo disse.
Observe inicialmente algo frequentemente esquecido: Paulo começa dizendo:
“A mulher aprenda.”
Em um ambiente antigo no qual a educação formal das mulheres podia ser limitada, essa afirmação não deve ser tratada como irrelevante. A mulher cristã deveria aprender a verdade.
Contudo, Paulo estabelece também uma restrição.
A questão interpretativa está em determinar qual ensino e qual exercício de autoridade estão sendo restringidos.
O contexto imediato é particularmente importante. Logo depois dessa instrução, Paulo passa diretamente às qualificações para aqueles que exerceriam a supervisão da igreja:
“Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja.” 1 Timóteo 3:1
O bispo ou presbítero deveria, entre outras qualificações, ser: “apto para ensinar.”
1 Timóteo 3:2
E deveria governar bem sua própria casa, porque Paulo pergunta:
“Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” 1 Timóteo 3:5
Temos, portanto, no contexto próximo, justamente as duas ideias presentes em 2:12:
ensino e autoridade/governo.
Isso fornece boas razões para entender 1 Timóteo 2:12 em relação ao ensino doutrinário autoritativo associado à liderança da congregação, particularmente ao ofício de presbítero.
Além disso, Paulo não fundamenta sua argumentação apenas numa circunstância cultural de Éfeso. Ele volta à criação:
“Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva.”
1 Timóteo 2:13
Esse detalhe torna difícil reduzir a instrução simplesmente a um problema local e temporário.
Portanto, considero biblicamente consistente sustentar que o presbiterato é um ofício confiado a homens biblicamente qualificados, sem concluir daí que todo ensino, toda oração, toda exortação e toda comunicação pública da Palavra sejam proibidos às mulheres.
Essa distinção permite levar a sério tanto 1 Timóteo 2 quanto Atos 21 e 1 Coríntios 11.
Não precisamos silenciar um texto para preservar o outro.
E o mandamento para as mulheres ficarem caladas?
Nesse ponto, 1 Coríntios 14:34 costuma ser lembrado:
“Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas.”
À primeira vista, alguém poderia concluir que Paulo está proibindo qualquer fala feminina durante a reunião da igreja.
Mas há uma dificuldade evidente.
Três capítulos antes, o mesmo Paulo reconheceu:
“Toda mulher que ora ou profetiza…”
1 Coríntios 11:5
Como conciliar os dois textos?
Uma pista importante encontra-se no próprio capítulo 14.
Paulo utiliza o verbo grego sigaō, “calar-se”, três vezes.
Aquele que fala em línguas deve calar-se quando não houver intérprete (v. 28).
Um profeta deve calar-se quando outro recebe revelação (v. 30).
E as mulheres devem calar-se no contexto mencionado nos vv. 34–35.
Nos dois primeiros casos, “calar-se” obviamente não significa que aquela pessoa nunca mais poderá falar na igreja. Trata-se de silêncio em determinada circunstância, visando preservar a ordem da reunião.
Isso deveria nos tornar cautelosos antes de transformar 1 Coríntios 14:34 numa proibição absoluta de qualquer participação verbal feminina.
Precisamos determinar qual fala Paulo está restringindo naquele contexto sem fazer o texto contradizer aquilo que ele próprio afirmou em 1 Coríntios 11:5.
O curioso caso de Ágabo
Existe ainda um detalhe interessante em Atos 21.
Logo depois de mencionar as quatro filhas de Filipe, Lucas escreve:
“Demorando-nos ali alguns dias, desceu da Judeia um profeta chamado Ágabo.” Atos 21:10
Ágabo então profetiza sobre aquilo que aconteceria com Paulo em Jerusalém.
Alguém poderia perguntar: se as filhas de Filipe eram profetisas, por que Deus utilizou Ágabo para entregar aquela mensagem?
A resposta mais segura é: o texto não diz.
Não devemos construir uma doutrina sobre aquilo que Lucas não explicou.
Nada no texto afirma que Ágabo precisou vir porque aquelas mulheres estavam proibidas de transmitir uma mensagem a Paulo. Pelo contrário, imediatamente antes de sua chegada, Lucas fez questão de informar que aquelas quatro mulheres profetizavam.
É melhor permanecer onde o texto permanece.
Entre dois extremos
Quando reunimos essas passagens, percebemos dois extremos que precisam ser evitados.
De um lado:
“Se mulheres profetizavam, então não existe nenhuma distinção entre homens e mulheres quanto aos ofícios da igreja.”
Atos 21 não nos autoriza a chegar automaticamente a essa conclusão.
Mas existe o extremo oposto:
“Se o ofício de presbítero é reservado aos homens, então mulheres não devem ensinar, falar, orar ou exercer publicamente seus dons na igreja.”
Atos 21 e 1 Coríntios 11 tornam essa conclusão igualmente difícil de sustentar.
Podemos reconhecer uma ordem estabelecida por Deus para o governo da igreja e, simultaneamente, reconhecer a extraordinária contribuição das mulheres para a edificação do corpo de Cristo.
Não precisamos escolher entre ordem e participação.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada
Durante muito tempo, boa parte da discussão sobre mulheres na igreja concentrou-se nesta pergunta:
“O que uma mulher não pode fazer?”
Essa pergunta tem seu lugar. Existem limites bíblicos, e precisamos conhecê-los.
Mas Atos 21 nos convida a fazer outra pergunta:
“O que Deus capacitou as mulheres da igreja a fazer?”
Essa mudança de perspectiva é importante.
As quatro filhas de Filipe receberam dons do Espírito e os exerceram.
Priscila serviu à verdade.
Febe serviu à igreja.
Mulheres trabalharam juntamente com Paulo pelo Evangelho.
Mulheres mais velhas deveriam ensinar as mais novas (Tito 2:3–5).
Mulheres oravam e profetizavam na igreja (1Co 11:5).
Portanto, uma igreja fiel às Escrituras não deveria apenas preocupar-se em estabelecer limites para o ministério feminino. Deveria também preocupar-se em criar oportunidades bíblicas para que mulheres piedosas exerçam os dons que Deus lhes concedeu.
Preservar a convicção de que o presbiterato é masculino não exige transformar as mulheres em espectadoras da vida da igreja.
Conclusão
As quatro filhas de Filipe aparecem apenas em um versículo da Bíblia.
Não conhecemos seus nomes. Não sabemos exatamente por quanto tempo exerceram seu ministério. Lucas não registrou nenhuma de suas profecias.
Mas sabemos algo:
elas profetizavam.
E o Espírito Santo considerou importante que essa informação permanecesse registrada nas Escrituras.
A igreja também precisa considerá-la importante.
O Novo Testamento não apresenta homens e mulheres disputando espaços de poder na igreja. Apresenta irmãos e irmãs servindo ao mesmo Senhor, capacitados pelo mesmo Espírito e trabalhando para a edificação do mesmo corpo, dentro da ordem estabelecida por Deus.
Por isso, podemos preservar as distinções estabelecidas pelas Escrituras sem criar outras que as Escrituras não estabeleceram.
Talvez, então, líderes e igrejas precisem fazer não apenas uma, mas duas perguntas:
Quais limites Deus estabeleceu em sua Palavra?
Dentro desses limites, estamos proporcionando às mulheres todas as oportunidades que as Escrituras lhes dão para servir?
Porque valorizar o ministério das mulheres não exige abandonar a ordem bíblica; e defender a ordem bíblica não exige silenciar as mulheres.
As filhas de Filipe nos lembram que uma igreja que honra a ordem de Deus deve também honrar os dons que Deus distribui ao seu povo.
Elias Marcelino